Eumar Francisco da Silva Um Papai Noel gigante, de 15 metros de altura, montado na principal praça de Balneário Camboriú, pega fogo e em apenas cinco minutos lá se vão pro lixo 86 mil reais. O boneco foi construído com materiais sintéticos, inflamáveis, para ser a grande atração do Natal camboriuense. Mas não tem problema não, isto foi em novembro e os responsáveis prometeram que outro igualzinho estaria pronto para a festa. Mais uma indigerível de Santa Catarina: a árvore de Natal encomendada pela prefeitura de Florianópolis, coisa igual nem países do primeiro mundo ousaram pensar. É uma árvore que disseram ter 60 metros de altura, 30 de diâmetro, pesando 300 toneladas, capaz de exibir mensagens enviadas por celular. Mas agora especialistas da UFSC mediram a altura e concluíram: ela tem apenas 51 metros. E a exibição de mensagens está à espera. Essas pequenas mentiras de nove metros e alguns gigabytes não é nada perto do valor estratosférico da árvore, de 3,7 milhões. O agravante é que ela não é lá essa beleza toda. Agora o imbróglio está na justiça. Por mais que digam que a iniciativa privada é parceira, todos sabem que é o contribuinte que paga a conta. E os seus defensores acham que um gasto desse se justifica pela “alegria” que ela dá a Florianópolis. Alegria, meus camaradas, ela só dá mesmo a quem botar a mão na grana. Enquanto isto, em Nova York, a mais famosa árvore de Natal do mundo, que há quase 80 anos é instalada no Rockfeller Center e é uma atração turística obrigatória, continua sendo apenas um pinheiro com luzes. O deste ano tem 21 metros de altura e pesa apenas dez toneladas. O custo não foi divulgado, mas provavelmente não é nem um terço da árvore de Florianópolis. E o cálculo é que uma média de 400 mil pessoas a vejam todos os dias. Quem quiser, confira, com transmissão ao vivo: www.nbcnewyork.com/around-town. Os dois casos de Santa Catarina são apenas exemplos da megalomania de algumas cidades que querem construir “atrações” de Natal melhor que a outra. Algumas capitais já vivem há alguns anos disputando, parece que tentando levar suas árvores para o livro dos recordes. Até agora só mostraram proezas nesse sentido. Não apresentaram nada que justificasse os gastos absurdos. Os natais, aliás, são festas do comércio. Muito pouco há de cristão nessas parafernálias criadas em torno de papais noéis, árvores e decorações. É bonito sim, mas quando se pensa que o sentido do Natal é outro, e vemos tantas necessidades urgentes à espera de verbas que nunca existem, dá para concluir que o Brasil vai demorar muito para tirar o pé do lama. Florianópolis mesmo está um suplício. Falta água, falta saneamento e seu trânsito está caótico. Bem que aqueles 3,7 milhões ajudariam a minimizar parte desses problemas. Transporte de graça Ao se falar em problemas urbanos, a questão do transporte aparece quase como insolúvel. As grandes cidades já estão praticamente paradas, de tantos carros na rua. Tem paulista que se orgulha de sua capital possuir uma das maiores frotas de helicópteros do mundo. É um orgulho bobo, pois só existem centenas de helicópteros cruzando a cidade porque lá em baixo é um caos, nada se move. Em muitas cidades européias, asiáticas e norte-americanas os empresários – que em São Paulo andam de helicóptero – usam ônibus, trens e metrô. Nesses lugares, transporte público de qualidade é prioridade. Há muitos anos Curitiba deu um passo enorme na tentativa de solucionar esse problema, mas certamente hoje os urbanistas e engenheiros de tráfego de lá já estejam perdendo o sono à procura de solução. Se uma cidade estabelece como prioridade o transporte público de qualidade – nisto entendendo-se conforto, pontualidade, quantidade e boas conexões –, mais da metade dos que hoje enfrentam o tráfego com os seus carros deixariam o carro em casa. Parece até que o incentivo à compra de carro com redução de IPI e créditos facilitados é uma estratégia de largar na mão do cidadão a responsabilidade pelo transporte. As cidades têm de deixar de ser este inferno barulhento, poluído e intrafegável. O que precisamos é de transporte público de qualidade, barato e, se for o caso, quase de graça, pois o dinheiro que a administração investir nele vai deixar de jogar fora em aplicações inúteis.
Natalzinho caro, esse
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